Paradoxos de aniversário.

Era seu aniversário. Completava mais um ano de vida, e esperava que as pessoas se lembrassem disso. Não que fosse realmente importante, mas achava que era importante para algumas pessoas. Para ele. Mas estava enganada. Não era importante. Muito menos para ele. Tinha esperanças de que ele se lembrasse, depois de todo aquele tempo em que passaram juntos; no entanto, seu aniversário foi apenas mais um dia qualquer para ele. E isso doía. Doía a ponto de relembrar seu sonho de quando começou a entender o que era a vida: um dia todos partem, e, dessa forma, queria partir no mesmo dia que veio – seu aniversário.
Sentou-se em sua cama no fim da noite. Estava cansada, mas não podia dormir. Ficou olhando as paredes, os quadros, os móveis, fracamente iluminados pela luz de seu rádio-relógio. Lembrou-se da última vez em que comemorara seu envelhecimento – família, amigos, e ele, todos presentes, todos a parabenizando, e ela feliz; o oposto daquele dia. Sentiu seus olhos arderem e logo sentiu o gosto salgado das lágrimas. A muito tempo não se sentia querida, e isso vinha machucando-a. Pensou nele mais uma vez, e sorriu. Imaginou o que estaria fazendo naquele momento, e logo seu sorriso se desfez. Provavelmente estaria com a namorada, é lógico. Imaginou se receberia os parabéns e os votos de felicidade no dia seguinte, mas sabia que criar esperanças quanto a isso era inutil.
Sentiu ódio, de si mesma e dele. Não queria se sentir daquela forma em relação a ele, não queria que ele fosse o motivo de sua felicidade – e muito menos de suas lágrimas, como estava sendo naquele momento. Não queria que ele fosse o motivo de fazê-la querer ficar sóbria e, ao mesmo tempo, fazê-la querer perder o pouco de juízo que ainda a restava. Não queria que ele fosse o limite entre ficar limpa e voltar a se destruir aos poucos. Não queria que ele fosse um, e muito menos outro.
Perguntou-se por alguns instantes se sentiria sua falta caso não acordasse mais, e sabia que a resposta era não. Ela não era importante para ele. Fechou os olhos e lembrou-se da sensação da pequena lâmina deslizando suavemente por seu pulso e o sangue escorrendo; sentiu-se em êxtase. Abriu os olhos e dirigiu-se ao banheiro. Não percebia o que estava prestes a fazer, estava em transe, e nada importava naquele exato momento. Olhou seu reflexo no espelho e teve a impressão de ver um fantasma: estava pálida, os olhos vermelhos, o cabelo de um ruivo desbotado, o rosto molhado. Retorceu a boca em desgosto; como havia se tornado aquilo? Não poderia dizer, mas não gostava daquela pessoa. Abriu a terceira gaveta de seu gabinete, e pegou uma pequena caixa de veludo preto. Abriu-a para ver o brilho melancólico daquele pequeno pedaço de metal que guardava com tanto zelo. Pegou-o, e fez pequenas marcas em seu braço, que logo se tornaram vermelhas, e, em apenas alguns instantes, sentiu o cheiro metálico de sangue e a sensação do líquido escarlate escorrendo por seu braço em direção ao chão.
Olhou-se mais uma vez no espelho, e percebeu que não tinha nada mais a oferecer. Sabia que não duraria mais um dia. No espelho, viu o reflexo de seu vidro de remédios, e decidiu que seria a forma mais rápida de fazer com que as coisas acabassem. Respirou fundo, fez o curativo usual – ah! como sentiu falta disso – e dirigiu-se novamente a sua cama. Sentou-se, passando a mão no rosto, e pegou o vidro. Abriu-o e despejou todo o conteúdo na cama. Pegou um dos comprimidos e engoliu-o. Depois outro, e mais outro. Sentia a sonolência, mas continuou a engolí-los. O quarto, o quinto, o sexto. Algumas lágrimas caíam silenciosas, e desculpou-se mentalmente à todos com quem se importava; desculpou-se por tudo de ruim que havia feito, por todas as vezes que se importara apenas consigo mesma, como se os outros não tivessem problemas. Um comprimido, um pedido de desculpas; mais um, e mais outro. Finalmente o último. Respirou fundo, e engoliu-o. Tudo que queria era ser salva; já vinha sofrendo há muito tempo, e vinha esperando que ele a salvasse. Mas ele havia cometido erros, e era muito tarde para que percebesse isso. Ele não poderia mais salvá-la; ninguém mais poderia.
Deitou-se em sua cama, os olhos marejados, a visão embaçada – não sabia se por efeito das lágrimas, ou devido aos remédios que havia ingerido; talvez por causa de ambos. Olhou para sua cabeceira e viu seu celular suplicando piedosamente para que o atendesse, para que continuasse ali, firme, viva. Viu o nome e o rosto de sua melhor amiga. Sentiu-se culpada por estar fazendo aquilo, mas as duas sabiam que seria melhor que ela partisse. Sussurrou um pedido de desculpas, como se a amiga fosse ouví-la, e desligou o celular assim que a amiga desistiu de tentar ligar. Ficou mais alguns segundos deitada na cama, sentindo seu corpo fraquejar aos poucos. O único pensamento que ainda mantinha era ele. Sabia que, querendo ou não, ele seria seu último pensamento, seu último sonho, sua última lembrança deste mundo.
Fechou os olhos e imaginou seu rosto, seus olhos, seu sorriso, seu perfume, seu cabelo, seu toque, sua voz chamando desesperada pelo nome da garota. Podia sentí-lo ao seu lado. Era tudo extremamente real. Real demais, na verdade. Abriu novamente os olhos, e, mesmo estando com a visão embaçada, pode vê-lo ao seu lado, o rosto molhado, contorcido em uma expressão de desespero e, ao lado dele, viu a imagem de sua amiga, também com o rosto molhado. E, de repente, ouviu o som de ambulâncias, as vozes dele e da amiga suplicando para que a garota continuasse com eles, e, então, a escuridão e o silêncio.

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